Sobre as imagens

A arte organiza a vida, é um instrumento de transformação social. A época onde este raciocínio pode ser visível foi no trabalho dos artistas soviéticos envolvidos na revolução. Rotchenko e Klucis, por exemplo, entendiam a imagem como um discurso elaborado a partir de códigos e significações e criado para ser difundido para grandes massas de público. Por isso, a fotomontagem, pela sua capacidade de sobrepor imagens de diferentes origens, viu nesta altura um grande desenvolvimento. O foco essencial, e para o qual se direcionavam todos os esforços foi o da consolidação de uma cultura socialista coletiva. Nesta época, a prática artística não estava agrupada em suportes específicos sendo interdisciplinar. No entanto, a fotografia seria o recurso privilegiado não só pelas suas características técnica porque lhe confere um perfil mais democrático, mas sobretudo pela capacidade de percorrer a realidade, analisando-a e envolvendo-a, numa perspetiva crítica. É essa capacidade da fotografia de envolvimento com o mundo, refletindo o real, manipulado-o e devolvendo novas imagens e outros discursos à realidade, o pressuposto onde assenta o trabalho de alguns artistas desta época. Nestes anos de construtivismo russo dá-se atenção à captação de imagens da realidade menos visível provocando mudanças na perceção da sociedade pelo uso da prática artística como instrumento de dinamização e transformação.

Não servindo como simples ilustração, a inserção de fotografias neste blogue vai dedicar-se por agora à produção fotográfica desenvolvida no início do séc. XX na União Soviética, de uma forma não exclusiva. Esta opção parte da ideia de que as imagens têm função e são parte ativa: comunicam com o texto, fornecem dados e enquadramentos. A arte está presente: medeia as nossas escolhas, faz parte consciente da realidade. A arte não se cruza com a vida, integra-a, reflete-a, organiza-a, tendo a capacidade de a transformar.

A escolha de Joshua Benoniel como um dos fotógrafos mais marcantes da sociedade portuguesa da viragem do século XIX/XX, resulta de uma dupla homenagem que a ANC – Alternativa Novo Curso pretende fazer a um ilustre representante de um povo tão perseguido pelas “botas cardadas” que estão de regresso e, ao mesmo tempo, pelo olhar lúcido sobre os movimentos sociais que agitaram a 1ª República.

Dele, sobram as imagens que se mantêm actuais na mensagem.