Crónica de uma saída que se anunciava | ANC

A ANC – Alternativa Novo Curso do Bloco de Esquerda é herdeira direta da antiga Moção B. Ao reivindicarmos essa herança, reivindicamos, também, uma capacidade de (auto)crítica sobre os percursos que o Bloco foi percorrendo desde então e que se consubstancializou na apresentação, à XII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, da Moção N – Por uma revolução tranquila.

Dizíamos, então, que quem ignora a história não tem passado e não tem futuro, na esperança que o Bloco, enquanto coletivo, conseguisse olhar para trás e aprender com os seus erros, leituras truncadas, insucessos. Nada disso aconteceu.

Numa fuga para a frente, a TEA – tendência esquerda alternativa e a RAC – rede anti-capitalista mantiveram e mantêm o rumo que já demonstrou, até à náusea, ser errado e que apenas conduz ao afunilamento do pensamento único. As maiorias absolutas, mesmo quando são falsas, são sempre nocivas para os colectivos. O Bloco vive há demasiado tempo sob a ditadura da (falsa) maioria absoluta para lhe ser possível alterar a postura, o rumo, a crítica e a proposta de solução. O fim está à vista, e só não o vê quem não quer.

Temos consciência que houve quem confiasse em nós, votando na nossa proposta de intervenção nos órgãos de direcção do Bloco. A essas pessoas, uma palavra de agradecimento, mas também de justificação por esta nossa saída, não só desses órgãos, mas do próprio Bloco.

Sabiamos que a Moção N era uma tentativa, talvez a última, para tentarmos influenciar uma mudança de rumo na orientação do partido, devolvendo a cada um dos seus membros a capacidade de expressão e de contribuir para uma solução plural. Sabemos agora que tal não só não aconteceu, como não irá acontecer, porque o Bloco passou de “Movimento” a um imobilismo total, porque perdeu o foco e o rumo e se transformou numa máquina burocrática e auto-suficiente que se auto-alimenta… A rede clientelar mantém-se e, de uma certa forma, afina-se, porque há cada vez menos cargos remunerados e esses ficam reservados para alguns e algumas que são “mais iguais que os outros”.

Todas as propostas que fomos fazendo ao longo do último ano, em diversos fóruns, e que faziam parte das que se encontravam incluídas no texto da Moção N, não foram atendidas – nada que surpreenda, porque qualquer voz discordante ou meramente dissonante é suprimida.

Podemos estar num partido em que as nossas propostas não são aceites, mas não podemos estar num partido em que elas nem sequer são ouvidas, quanto mais discutidas.

Podemos estar num partido em que há críticas à actuação de alguém, mas não podemos estar num partido em que existe uma “caça às bruxas” e uma incessante procura do “inimigo interno”, com aplicação de sanções a “delitos de opinião”.

Não podemos estar num partido que confunde, deliberadamente, debate de ideias com “tens 3 minutos e vê se te calas”; onde há censura prévia sobre o que se publica e sobre quem se publica; onde deixou de haver espaço para o contraditório.

Não podemos estar num partido que defende “35 horas de trabalho no público e no privado” mas que obriga contratualmente os seus funcionários a 40 horas de trabalho por semana e afirma que isto não é incoerência, mas tão só um pró-forma.

Não podemos estar num partido que era irreverente na abordagem às questões da população e original nas propostas de solução e que se aburguesou na defesa dos interesses da sua clique dirigente, que chega ao limite de instaurar a hereditariedade como uma forma de não renovar nada.

Semanas depois de se ter apresentado, em sede de mesa nacional e por email, a renúncia aos mandatos dos elementos da Moção N, mantêm-se os nomes na página do Bloco – quer enquanto membros da mesa, quer da comissão política, e continua-se a receber as convocatórias para as sessões da mesa. Tudo quanto possa contribuir, ainda que muito vagamente, para uma outra imagem do partido que não a assumida pelas duas tendências maioritárias  é objecto de ostracismo,  desaparece sem deixar rasto. Nem mesmo na minuta da reunião da última mesa nacional aparece referência a estas demissões. 

Em suma, não podemos estar num partido que virou costas à sua génese, às suas bandeiras de intervenção social e à sua forma diferente de fazer política.

Hoje, o Bloco já não é parte da solução, passou a ser apenas parte do problema.

Demitem-se, com efeitos imediatos, da militância do Bloco de Esquerda:

  1. Ana Cristina Basílio – aderente nº 12 487 – Almada/Setúbal
  2. Ana Emília Carvalho – aderente nº 12 471 – Almada/Setúbal
  3. Ana Lúcia Massas – aderente nº 843 – Almada/Setúbal
  4. António Sarmento – aderente nº 6 373 – Almada/Setúbal
  5. António Carlos Frutuoso – aderente nº 5 201 – Almada/Setúbal
  6. Cristina Zina – aderente nº 10 937 – Almada/Setúbal
  7. Filipe Daniel Abreu – aderente nº 12 486 – Almada/Setúbal
  8. Hugo Lemos – aderente nº 10 920 – Almada/Setúbal
  9. João Almeida – aderente nº 699 – Ovar/Aveiro
  10. João Barros – aderente nº 9 826 – Lisboa/Lisboa
  11. José Carlos Seabra – aderente nº 5 277 – Almada/Setúbal
  12. José Ramos – aderente nº 8 139 – Grândola/Setúbal
  13. João Nuno Matos – aderente nº 3 784 – Almada/Setúbal
  14. Joaquim Bastos – aderente nº 14 158 – Alfândega da Fé/Bragança
  15. Joaquim Claro – aderente nº 11 403 – Lisboa/Lisboa
  16. Joel Alexandre Lopes – aderente nº 2 350 – Almada/Setúbal
  17. José Ribeiro – aderente nº 13 304 – Ponte de Sôr/Portalegre
  18. Kazi Salah Uddin – aderente nº 12 488 – Almada/Setúbal
  19. Lúcia do Céu Rijo – aderente nº 12 570 – Almada/Setúbal
  20. Maria Alexandra Candeias – aderente nº 12 290 – Almada/Setúbal
  21. Maria Eugénia S. Silva – aderente nº 10 254 – Ovar/Aveiro
  22. Maria Filomena Santos – aderente nº 12 489 – Almada/Setúbal
  23. Maria Leonor Lemos – aderente nº 4 927 – Almada/Setúbal
  24. Maria Margarida Rodrigues – aderente nº 14 617 – Alfândega da Fé/Bragança
  25. Maria Nazaré Reis – aderente nº 5 167 – Almada/Setúbal
  26. Martim R. Calmeiro – aderente nº 9 836 – Lisboa/Lisboa
  27. Miguel Oliveira – aderente nº 7 890 – Santarém/Santarém
  28. Patrícia Ribeiro – aderente nº 13 843 – Ponte de Sôr/Portalegre
  29. Paula Pereira – aderente nº 4 233 – Cascais/Lisboa
  30. Paula Rosa – aderente nº 9 671 – Lisboa/Lisboa
  31. Pedro Miguel Honrado – aderente nº 12 568 – Almada/Setúbal
  32. Pedro Pereira Neto – aderente nº 11 721 – Seixal/Setúbal
  33. Renato Marco Inácio – aderente nº 12 566 – Almada/Setúbal
  34. Ricardo Azevedo – aderente nº 12 716 – Almada/Setúbal
  35. Ricardo Jorge Mendes – aderente nº 12 829 – Almada/Setúbal
  36. Rui Miguel Massas – aderente nº 12 472 – Almada/Setúbal
  37. Sónia Alexandra Castro – aderente nº 5 166 – Almada/Setúbal
  38. Sónia Nunes – aderente nº 12 569 – Almada/Setúbal
  39. Soraia Reis – aderente nº 12 565 – Almada/Setúbal
  40. Tânia Pinto – aderente nº 14 956 – Mirandela/Bragança
  41. Tomás R. Calmeiro – aderente nº 15 728 – Almada/Setúbal

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