O Estado da Nação no Bloco de Esquerda: Uma Nomenklatura Degenerada | Pedro Pereira Neto

Desenvolvido por Trotsky em A Revolução Traída, o termo Estado Operário Degenerado foi originalmente criado para descrever a condição de um partido cujo poder se encontra consolidado num reduzido número de figuras (ou, em limite, em apenas uma, como no caso de Estaline). De acordo com a descrição original, este grupo reduzido – designado de nomenklatura ou “casta” – havia colocado em marcha um conjunto de procedimentos burocráticos de crescente autonomia face a quem afirmava representar, daí resultando a reserva de privilégios e defesa de interesses pessoais.

Lamentavelmente, tal termo parece corresponder em demasia à conduta da nomenklatura que dirige o Movimento. Por que razão? Observando a prática habitual dos órgãos internos do Bloco de Esquerda sobressaem dois factos: a sua colonização efectiva por representantes das mesmas duas tendências (TEA e RAC) responsáveis pelo descalabro eleitoral dos últimos sete anos; a inviabilização sistemática de qualquer iniciativa política ou programática que tenha origem em qualquer outra tendência ou sensibilidade interna, sem prejuízo da afirmada igualdade e diversidade inscritas não apenas nos documentos fundamentais do movimento mas nos próprios discursos das suas principais figuras públicas. A este cenário vem, sem surpresa, acrescentar-se a deliberação em causa própria no órgão responsável pela vigilância e aplicação dos estatutos do BE, cuja composição reproduz a mesma assimetria de poder.

Em eventos de anunciado debate que estatutariamente não consegue evitar, a estratégia revela-se outra: a da colonização, novamente, mas do discurso, sucedendo-se de forma tão expectável quanto inútil um conjunto de ecos da mesma voz central, veiculando o mantra da ‘análise oficial autorizada’ a subscrever e reproduzir, tentando pelo número persuadir daquilo que a substância não é capaz. A culpa é sempre consequência terceira: não há erro de estratégia, de comunicação; o Bloco afirma-se, comicamente, como o herdeiro de quem nunca se engana e raramente tem dúvidas.

Após três eleições em sete anos, nos quais as perdas de eleitorado são superiores a cinquenta por cento, a nomenklatura continua a considerar-se em condições de cumprir um mandato político que, eleição após eleição, o eleitorado demonstra não reconhecer (e que só a endogamia mantém artificialmente), enquanto a outras/os titulares de cargos exige a plenos pulmões uma dignidade, responsabilização e demissão que se furta a praticar. Se em Política o eleitorado tem sempre razão, seria de esperar que três derrotas e menos de metade dos votos fossem mensagem suficiente para demonstrar o erro da insistência nas mesmas ideias, nos mesmos rostos. De forma tão confrangedora quanto significativa, os órgãos dirigentes do Bloco de Esquerda mantêm-se avessos à realidade que os rodeia e ao eleitorado cujos interesses dizem representar, assumindo de modo crescentemente visível nos últimos dez anos uma e apenas uma natureza: a de uma degeneração em exposição, movida pela defesa do interesse próprio, numa surdez que terá, previsivelmente, resultados ainda mais graves no futuro.

Sob pena de desaparecimento precoce, impõe-se ao Bloco de Esquerda a humildade suficiente dos seus órgãos dirigentes, não apenas para aceitar a sua responsabilidade na sucessão de desastres eleitorais, mas também a consequência dessa responsabilidade.

Sob pena de desaparecimento precoce, impõe-se ao Bloco de Esquerda a humildade suficiente dos seus órgãos dirigentes para aceitar que qualquer outro modo de conduta que não seja o da saída dos actuais corpos dirigentes significa, na prática, uma desvalorização atroz das competências e qualidades do restante conjunto de aderentes. 

Sob pena de desaparecimento precoce, impõe-se ao Bloco de Esquerda a humildade suficiente dos seus órgãos dirigentes para aceitar a ideia de que um movimento só é plural no reconhecimento de que cada aderente está em igual condição de ser ouvida/o, de ser eleita/o, de ver aprovadas as suas ideias, as suas propostas, e de que não existe predestinação para cargos, nem se limita a uma pequena casta o conjunto de competências necessárias para levar por diante o projecto que esteve na origem do Movimento.

Sob pena de desaparecimento precoce, impõe-se ao Bloco de Esquerda a humildade suficiente dos seus órgãos dirigentes para aceitar a ideia de que esta comunidade não é apenas destinatária de mensagens centrais mas emissora ela própria, com igual direito à visão como ao desempenho dos lugares de fala a partir dos quais, transitoriamente (e quão esquecida está ideia), se responde por todas e todos.

Enquanto o passado mantiver refém o presente não é possível construir qualquer futuro.

Pedro Pereira Neto

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s