Declaração de Protesto | ANC

Esta é a transcrição da Declaração de Protesto enviada para os mesários no dia 5 de Fevereiro de 2022 e que não foi distribuída por razões desconhecidas (mas que se podem adivinhar).

Declaração de Protesto da Moção N – Por uma revolução tranquila

Camaradas Mesários/as,

Hoje a Moção N está ausente da Mesa Nacional em protesto por:

1. Solicitada que foi a realização desta Mesa Nacional on-line, dado o número crescente de infeções por Covid, em Comissão Política do passado dia 1, a maioria fez ouvidos moucos, e nem sequer foi votada a proposta alternativa. Camaradas pertencentes a grupos de risco ficam impossibilitados de exercer o seu direito sine die;

2. O teor das intervenções que têm sido públicas por parte dos e das “notáveis” indica e condiciona a forma como a avaliação dos resultados (e de todo o processo) das eleições legislativas se vai processar – ausência de implicações e de reavaliação estratégica, a par com as loas do “nós somos o melhor que há, pena que os eleitores não entendam o que dizemos”;

3. Aliás, o remeter as discussões para plenários distritais é uma forma de diluir no tempo e no espaço as vozes críticas – a audição de todas as estruturas deveria ser acautelada em plenário nacional, imediato;

4. Por outro lado, a experiência indica que os 4 minutos de intervenção (que rapidamente passam a 3) faz sobrepor a forma ao conteúdo e à finalidade. A Mesa Nacional tem de deixar de ser apenas um incómodo e um percalço na agenda que a maioria tem de cumprir, deixar de ser apenas uma mera formalidade, mecanismos duma democracia interna que têm de ser tolerados para que assim se continue a chamar: democracia;

5.  A existência de mais do que um ponto na presente ordem de trabalhos revela indisponibilidade para uma discussão honesta, franca, dura onde tiver de sê-lo, sobre o que se passou, e na realidade, sobre o que anda a passar-se há várias eleições;

6. Importa repetir o que já foi dito, mas não ouvido, nesta mesma sala, na sequência da censura que a direcção do Bloco de Esquerda exerceu sobre os eleitos da Moção N 

“As consequências dos(estes) atropelos à democracia interna são, em primeiro lugar, uma profunda desmotivação para o trabalho político, afastamento das dinâmicas locais, descontentamento com a situação, questionamentos sobre a validade de militar num partido/movimento que nega, na prática, os seus principais princípios fundadores. Reduzem-se as boas-vontades individuais e as capacidades coletivas; afunila-se o pensamento crítico, cristaliza-se a forma de fazer as coisas e agudizam-se os tiques (as tendências) estalinistas por parte dos setores mais reacionários do Bloco.

É necessária a humildade para reconhecer que os erros políticos do BE têm-no conduzido a uma posição de quase irrelevância política e que muito se deve à ausência de uma estratégia de comunicação.”

7.  “Errar é humano, reconhecer os erros é sinal de inteligência”, afirmado que foi no encerramento da campanha, parece que já foi esquecido por quem a proferiu;

8. A duplicidade de critérios, consoante se trate de “cá dentro” e “lá fora” é um sinal de profunda desonestidade política e intelectual: programaticamente, lutamos contra o privilégio. Internamente, promovemo-lo; programaticamente, lutamos contra as maiorias absolutas, internamente promovemo-las; programaticamente, lutamos contra as medidas da Troika, internamente temos 40 horas de trabalho semanal e dizemos que é mera formalidade; internamente vale um telefonema, destas paredes para fora há que exigir “um acordo escrito a 31 de Janeiro”; 

9. Esta dualidade de critérios não é apenas de crescente conhecimento público: em conjunto com a evidente indisponibilidade para assunção colectiva e pessoal de consequências, constitui um dos fundamentos da perda de distinção que antes caracterizava este Movimento e do esboroamento da confiança popular que a sucessão de resultados negativos traduz;

10. Tivemos 3 assuntos na campanha, nos debates: falar da maioria absoluta, da tal extrema-direita que passou a ser a nossa bítola e das medidas que o PS não aceitou – e com que linguagem corporal… com um constante sorriso sobranceiro nos lábios que já ninguém aguenta e devíamos todos e todas admiti-lo;

11. Tivemos derrotas nos três assuntos assumidos como chave;

12. Houve 3 tipos de pessoas a considerar nesta campanha: as que simplesmente se recusaram a participar ou mesmo a votar BE por causa dos cabeças de listas impostos; as que fizeram desta campanha uma missão, um compromisso a cumprir; e as mesmas atrás das mesmas, à espera do seu momento, questionando-se “porquê eles e não eu?”;

13. A aceitação do primado do indivíduo sobre o colectivo, profundamente liberal e anti-socialista, com que a Comissão de Direitos aceita que um qualquer elemento eleito para um órgão interno do Bloco se aproprie desse lugar como se fosse seu e não do colectivo que integrou – pelos vistos, os casos Rui Tavares são só para se protestar de boca, dada a ausência de  uma leitura verdadeiramente socialista;

14. Podemos estar num sítio em que pertencendo a uma minoria, as nossas ideias e propostas são recorrentemente chumbadas, não podemos estar num sítio onde somos sistematicamente ignorados, ignorados por princípio, sem interesse, análise ou reflexão;

15. Ainda ontem, um camarada que muito prezamos se despediu, todos dias um camarada ou uma camarada se despedem desta militância – o Bloco, ficou sem dúvida mais pobre e nós, sem dúvida, ficamos ainda mais sós;

Um Bloco de Esquerda que aceite ser piramidal contradiz a sua natureza. O Bloco de Esquerda não pode ser um lugar onde “manda quem pode, obedece quem deve” – esta é uma frase de Fernando Rosas que sintetiza aquilo em que o Bloco se tornou.

A Moção N – Por uma revolução tranquila

5 de Fevereiro de 2022

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