Quem somos? | ANC

Não nos aprestamos a fazer qualquer balanço. Se os comportamentos revelam intenções, a existência de mais de um ponto na ordem de trabalhos da próxima Mesa Nacional revela indisponibilidade para uma discussão honesta, franca, dura onde tiver de sê-lo, sobre o que se passou, e na realidade, sobre o que anda a passar-se há várias eleições. A dureza deste debate, inversamente proporcional à disponibilidade que há anos tem existido para ele, não é uma necessidade, mas uma obrigação.

No mesmo sentido, a mais importante forma de lidar com um problema é reconhecer que temos um. Mais do que nada fazermos nesse plano em afirmações públicas, é no facto de nada nas reuniões anteriores traduzir esse reconhecimento que deve preocupar-nos. Há um limite para o que podemos externalizar de responsabilidade. Já dissemos que o problema era a conduta de outros partidos, as suas estratégias. Já dissemos que o problema eram as circunstâncias. Já dissemos que o problema era a capacidade de compreensão da nossa mensagem por parte da população. Fomos a esse ponto: o problema não é nosso – compreendem-nos mal. Como é possível: continuamos a afirmar a necessidade do Homem Novo, em 2022?

Ser diferente começa por fazer diferente. E nós nada fazemos de diferente há muito tempo. Reservámo-nos o exclusivo da novidade, da honestidade, da franqueza. Éramos a juventude. Trazíamos renovação para um sistema político a dar sinais de esgotamento. Tolerámos o vexame, a desconsideração, o insulto. Éramos irrealistas, queríamos o impossível. Éramos sempre demasiado algo, ou insuficientemente qualquer coisa. Afinal, havia entre a população quem quisesse o mesmo. Acreditou em nós: deu-nos o seu voto, em quantidade cada vez maior. Havia, afinal, vozes menores que queriam ser ouvidas. O impossível era desejável, era alcançável, e simbolizávamo-lo nós. 

Depois, depois veio a desilusão. A derrota. O desânimo. Uma queda que quisemos acreditar ser apenas acidente, sem culpa nossa. Uma vitória seguinte parecia confirmá-lo. As cordas vocais eram as nossas, mas as palavras, as palavras voltavam a ser de milhares de pessoas sem lugar, sem direitos, sem sol. E quando descerrávamos os lábios, eram esses milhares de pessoas ali, feitas presentes, não mais ignoradas e ignoráveis. Éramos o pé na porta por onde tantas e tantos podiam finalmente entrar em espaços que sempre deviam ter sido seus. E por elas e eles, a elas e eles tornámos incontornáveis.

Tornámo-nos, depois, complacentes. Começámos a reservar-nos o lugar, a fala. A pensar que tínhamos merecido o espaço, que o merecimento estava garantido, que era vitalício. Algumas das vozes que antes amplificáramos deixaram de sentir sermos nós o seu melhor veículo. Não nos chegavam, essas vozes; não havia tempo para escutá-las, todas. Colocámo-las em pequenas caixas de tempo, de agenda. A proximidade tornou-se visita ocasional, espécie de paragem obrigatória em roteiro turístico político. ‘Não chegamos para tudo!’, dissemos; ‘somos poucas e poucos’. Não; aceitámos, decidimos, concordámos ser sempre as mesmas e mesmos: os mesmos nomes, frases, palavras. Da afirmação e coerência passámos à repetição e redundância. Da novidade à familiaridade, e desta à previsibilidade. À força de nos considerarmos legitimados, transformámos merecimento e confiança em excesso desta. Que uma excursão vinda da metrópole renovava por si só a ligação a quem antes se sentia fora. Reforçámos as paredes de um castelo cada vez mais fechado, que instruía em vez de escutar, que impunha em vez de acolher. Da embriaguez da reserva do lugar passámos rapidamente à audição selectiva, e desta à surdez e à soberba perante a mesma diversidade de opinião que fora a nossa força.

O Bloco de Esquerda, anterior movimento, endureceu em mais do que um sentido. Deteve o seu passo, convenceu-se da sua razão. Um movimento que não se move não o é mais. E não apenas a confiança, a legitimidade, o voto, a eleição que o Bloco de Esquerda perdeu novamente, pela enésima vez consecutiva. Foi a si. Esqueceu-se das razões por que foi criado. Das pessoas para quem foi fundado. O significado que teve, e que só em documentos do passado hoje encontramos. Essa é a derrota mais dura de todas: a que infligimos a nós mesmas e mesmos. Desiludimos a nossa História comum, o nosso passado, com o conforto em que nos reservamos o direito de viver e pensar no presente.

Para mudar o mundo começamos por nos mudar a nós. A mudança é um verbo, não um slogan. Não se enuncia: pratica-se. A principal mudança recente no Bloco de Esquerda foi o seu entrincheiramento interno, contra a própria diversidade que ainda afirma ilustrar. Foi o recuo para uma espécie de aldeia gaulesa que resiste sobretudo à realidade. Espécie de casa na árvore cuja entrada é restrita na base de perfilagem de proximidade ao seu núcleo, tornou-se um museu vivo de privilégio endogâmico, em que os factos não são permitidos, e em que a realidade aceitável é preparada e transmitida para ser aceite e reproduzida, sem questionamento de qualquer espécie. “Estamos juntas e juntos”, mas fechadas e fechados num grupo em redução rápida, a caminho da extinção; banda que continua a ler a pauta enquanto o navio aponta ao fundo. Não estamos juntas e juntos há muito tempo: apenas nos habituámos a seguir os exemplos de imobilismo que conhecíamos – aqueles que combatíamos no início, recordam-se? – e a substituir facto por leitura criativa conveniente à sobrevivência da cúpula. As restantes ideias, alertas, alternativas… que comam brioche, solenemente convidadas a assistir à repetição do brilhantismo das poucas e poucos, em todo o seu brilho e decrepitude em exposição.

Recusamo-nos, mesmo ‘estando juntas e juntos’, a avaliar o que fazemos, o que fizemos. Como foi feito, e se era a melhor opção. Quem representou, e se foi a melhor escolha. Não há só méritos colectivos, nem apenas deméritos colectivos. Se a diversidade é força, se é riqueza – e concordamos que sim – então reconheçamos que as pessoas são diferentes, têm qualidades e méritos diferentes, assim como falhas e deméritos. Que tentam, e nada garante que resulte. E se não resulta, com o mesmo crivo que usamos constantemente para outrem, com a mesma exigência e urgência que usamos para a realidade, olhemos para aquilo em que nos tornámos. Votamos obedientemente em grupo, a toque de caixa, em linha. Ordeiras e ordeiros, re-aclamando o absolutismo interno, boçalmente rindo com desdém das outras e outros, que parecem estar tão distantes na humanidade como próximas e próximos na mesma mesa. Tornámo-nos o que criticávamos: desconsideramos sem ouvir, demonizamos em conhecer, excluímos por diferença. Somos um Bloco? De quê? De quem?

Se queremos que a população considere a diversidade como riqueza então não podemos fazer diferente na organização. Não podemos continuar a decidir de cima para baixo, ‘favorecendo’ a periferia com o ‘benefício’ que é receber a mensagem do centro. Não podemos excluir por definição quem não é ‘das nossas e nossos’; quem não faz parte do círculo de privilégio. Não é possível naturalizar as condutas absolutamente infantis, feitas de suspiros e enfado, de cada vez que um ponto de vista, ideia ou proposta é apresentada por alguém não ungido pela elite parlamentar (ou por um dos senadores, sempre a seguir!). A mesma desconsideração praticada para connosco pelos restantes partidos praticamo-la nós, hoje, com igual convicção de razão tácita. A mesma denúncia dos perigos das maiorias absolutas alheias tornaram-se legitimação de uma audição selectiva em órgãos internos. A mesma aversão, anterior e actual, a manobras de favorecimento e falta de transparência institucional noutras instituições foi naturalizada internamente na constituição de listas, com critérios de necessidade que ninguém pode ousar questionar sob pena de avalanche de censura, em número e em qualidade. Um Bloco de Esquerda que aceite ser piramidal contradiz a sua natureza. E esta dualidade de critérios não é apenas de crescente conhecimento público, inalcançável por qualquer reescrita conveniente do presente: em conjunto com a evidente indisponibilidade para assunção colectiva e pessoal de consequências, constitui um dos fundamentos da perda de distinção que antes caracterizava este Movimento e do esboroamento da confiança popular que a sucessão de resultados negativos traduz.

Por que melhoria de condições de vida nos movemos: nossa ou da população? Somos um Movimento em proveito próprio ou alheio? Assim como a mudança, também os valores de Esquerda constituem articulação: sem uso, sem prática, estão condenados a desaparecer. Estamos a receber sinais nesse sentido há diversas eleições. Queremos ouvi-los; ou bastamo-nos? Queremos mudar a realidade, ou prescindimos dela?

ANC – Alternativa Novo Curso

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