Carta aberta a ti, bloquista | ANC

Primeiro como tragédia, depois como farsa: de uma longa sucessão de oportunidades perdidas a uma alternativa feita de exemplo

Camarada,

Aproxima-se um momento importante na História política recente do país que partilhamos, e pelo qual nos movemos. No dia 30 de Janeiro de 2022 será conhecido o resultado da legítima avaliação feita pela população, não apenas do papel das diversas forças políticas no passado recente, mas também das propostas que apresentam para o progresso da condição em que cada pessoa vive, trabalha, e sonha o seu futuro. O Movimento que integramos não foge a esta avaliação.

A honestidade e a humildade exigem da nossa parte a capacidade de nos disponibilizarmos para essa avaliação sem leituras criativas da realidade, sem encenações ou bravados heróicos, e sem qualquer pejo em reconhecer que um colectivo só é forte quando também o é a força da sua responsabilidade.

A primeira nota a fazer resulta precisamente do momento político em que nos encontramos. Sem prejuízo da coerência que constituiu a recusa de um Orçamento de Estado que não apenas mantinha intactos muitos dos desequilíbrios existentes na sociedade – seja na dimensão do trabalho, educação ou cultura, seja na dimensão económica – como desmentia a ideia da ‘mudança de página’ relativa à austeridade imposta à população, a verdade é que a alternativa que o Movimento pretende constituir tem de se ancorar em atitudes concretas, no exemplo, mais do que no discurso. Não basta afirmar diferença – temos a obrigação de demonstrá-la em cada gesto, em cada decisão. Esta eleição oferece um horizonte de oportunidades para afirmar essa alternativa, e é importante que seja iniciada desde já uma discussão franca e humilde, auto-crítica mas também de oferta de caminho diferente.

A segunda nota que importa fazer prende-se com o reconhecimento de que diversos erros estratégicos têm sido cometidos nos últimos anos, ilustrados pela sucessão de maus resultados eleitorais, sem distinção por tipo de eleição. Reconheçamo-lo: não tem sido por falta de alerta que esses erros não têm merecido solução – têm sido apontados em todos os principais eventos políticos do nosso movimento, a nível nacional mas também local. Contudo, não foi até ao momento assumida qualquer responsabilidade por parte das duas principais tendências. Aliás, os avisos têm sistematicamente sido alvo de censura, ora mais suave ou praticada através do número de intervenções contra ela encenadas e ensaiadas, assim as sabotando mediante um voto em bloco na pior tradição exclusivista em movimentos de Esquerda, ora mais brutal e imediata, através da sua retirada do espaço oficial do Bloco de Esquerda.

Aqui reside outra das oportunidades perdidas pelo nosso Movimento: em nenhum dos resultados anteriores foi tirada qualquer ilação, assumida qualquer má estratégia, ou decidida qualquer conduta alternativa, como constantemente exigimos a outras forças partidárias, mesmo perante a evidência do mau resultado. Em substituição dessa ética de responsabilidade tem-nos sido apresentado um conjunto de mistificações, alternando a pífia celebração de resultados de Pirro com o regozijo resultante de derrota alheia, quando não a mais despudorada dramatização de cenários catastrofistas caso alguma alteração efectiva fosse permitida nos órgãos de direcção nacional ou na sua estratégia– como se em todo o Movimento não existissem diversas visões igualmente ou mais válidas e capazes de definir estratégia.

Não duvidemos, também, do futuro imediato perante o qual seremos colocadas/os, na senda do passado recente: a mesma ausência de justificação de resultados tão maus quanto merecidos, o mesmo conjunto de manobras discursivas de fuga lateral, são já guião preparado em torno das mesmas ‘razões’: a excepcionalidade do contexto político; a dramatização do discurso em torno do voto útil; a incapacidade da população em compreender a mensagem do Bloco. Antes mesmo do termo da contagem dos boletins, a desresponsabilização própria dos nossos órgãos dirigentes nacionais encontra-se já escrita, e os lugares reservados à auto-validade da elite nacional deste Movimento mantidos na proporção previamente negociada entre os/as do costume.

Outra das oportunidades perdidas nesta eleição prende-se precisamente com o processo de audição de propostas políticas, bem como na constituição e rejuvenescimento das listas. Lamentavelmente, e ao contrário do que afirmam até os manifestos das duas tendências a si chamando o privilégio da direcção dos destinos deste Movimento, tais propostas e listas estão inaceitavelmente distantes de qualquer sentido de pluralismo ou diversidade: para além de um evidente rateio endogâmico (entre nomes que mais não fazem que trocar cadeiras e lugares), a colocação estratégica de aderentes tem revelado sobretudo favorecimento de natureza não proposicional, quando não familiar, à revelia de tudo o que o Movimento afirma constituir e contra o que amiúde diz combater. Apontemo-lo: um erro não deixa de sê-lo por ser praticado por nós; e a incoerência – para não dizer falta – de princípios tem sistematicamente minado a reputação do Bloco de Esquerda, fazendo com que seja frequentemente considerado apenas mais um partido à procura do mesmo. Perante a falência de carácter observável nas listas e condutas alheias, não podemos aceitar a sua prática, sob pena de os ideais que nos movem, da defesa dos direitos da população que afirmamos ser a nossa missão, não passarem de letra convenientemente morta.

Por estas razões, não pode o Bloco de Esquerda ambicionar o aumento da sua representação parlamentar ou o cumprimento digno do mandato que procura, enquanto praticar o que denuncia a terceiros, seja o silenciamento selectivo de declarações políticas que considera inconvenientes, seja a indisponibilidade para a flagrante sabotagem de consensos políticos internos (para cuja solução foi considerado desnecessário o mesmo tipo de acordo escrito exigido a outras forças partidárias, numa incoerência gritante), seja ainda a discriminação e desconsideração da autonomia local (considerada válida apenas enquanto veículo e destinatária de estratégias de promoção pessoal, em evidente violação dos estatutos do Movimento).

Estamos igualmente a perder a oportunidade de colocar um fim à sucessão de descontentamento, desencanto e desmobilização que tem caracterizado o nosso Movimento, esquecendo que o colectivo tem necessariamente de ser mais importante que a ocasional vantagem da tendência interna. A sangria sistemática de aderentes, o desaparecimento (e, em alguns casos, demonização) da sua memória, têm consequências que deveriam mover-nos a evitá-la. Não é possível inspirar a população quando somos cada vez mais incapazes de inspirar a quem somos, de recordar por quem devemos fazê-lo, de ser a mudança que sugerimos a outrem. Cada oportunidade em que nos opomos a reforma e renovação interna torna-nos apenas reflexo do imobilismo que denunciamos a outrem. Quando reproduzimos o imobilismo de ideias, de propostas, de nomes, reduzimo-nos a sintoma, deixando de ser solução. Um Movimento que não se move nega a sua natureza, e não merece a confiança de que precisa, nem inspira a insubmissão e a mudança que pretende.

Não nos iludamos, camarada: a mudança começa connosco. E é para essa mudança que temos de encontrar um caminho em conjunto; para voltar a corporizar a esperança face ao cansaço, à desilusão, à falta de horizonte nas vidas de todas e de todos; para um país melhor para viver, mais digno para trabalhar, mais igualitário para quem nele começa a sua jornada, mas também para quem dela deve colher a sua justa retribuição, a Alternativa Novo Curso estará sempre disponível, como estará disponível para as lutas amargas que a próxima travessia do deserto nos vai obrigar a todas e a todos.

Viva o Bloco de Esquerda e os seus princípios fundadores.

ANC

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