Declaração Política | Outubro de 2021

1. O Bloco de Esquerda vê a sua terceira derrota eleitoral consecutiva no espaço de 2 anos, com pesadas perdas ao nível dos votos e dos mandatos. Se é certo que o número de deputados eleitos em 2019 foi igual, in extremis, ao registado em 2015, não é menos verdade que a perda de 60.000 votos impediu o reforço da representação parlamentar. As presidenciais de 2021 demonstraram até à exaustão o erro político de apresentar uma candidatura própria, cujo saldo foi uma perda de 300.000 votos. As Autárquicas de Setembro último culminaram com uma perda de 20% dos votos, 25% dos deputados municipais, 66% dos vereadores, e nem a eleição do vereador no Porto esconde a catástrofe dos resultados.

2. Esta desastrosa sucessão deveria obrigar a uma profunda reflexão, a todos os níveis do Bloco (não apenas ao nível do Secretariado), em torno das suas causas objectivas; mas opta-se por nada alterar, remetendo todas as justificações para as “conjunturas” ou para a “incapacidade de compreensão” das propostas bloquistas por parte do eleitorado. De uma força política revolucionária espera-se não apenas a capacidade de identificação de contradições estruturais externas mas uma constante reavaliação crítica de estratégias próprias, com honestidade e humildade, ao serviço da população. 

3. Neste momento, é totalmente artificial a partilha de cargos entre a Rede Anti-Capitalista e a Esquerda Alternativa, tendências dominantes dentro do BE, que insistem em fazer tábua rasa das suas profundas diferenças ideológicas em troca de empregos remunerados. A contradição é evidente: enquanto o BE, para fora, faz alarde da necessidade de evitar as maiorias absolutas, para dentro tudo faz para reduzir as vozes de contestação ou meramente de diferenças de análise ou conceptuais. Por outras palavras, para a atual direção do BE, o que é bom para os outros, não é bom para nós. 

4. As consequências destes atropelos à democracia interna são, em primeiro lugar, uma profunda desmotivação para o trabalho político, afastamento das dinâmicas locais, descontentamento com a situação, questionamentos sobre a validade de militar num partido/movimento que nega, na prática, os seus principais princípios fundadores. Reduzem-se as boas-vontades individuais e as capacidades coletivas; afunila-se o pensamento crítico, cristaliza-se a forma de fazer as coisas e agudizam-se as tendências estalinistas por parte dos setores mais reacionários do Bloco.

5. Mesmo a entrada de novos aderentes (tipo auto-colante) que se verificou na sequência das últimas campanhas eleitorais, não disfarça a erosão constante que as saídas de militantes mais antigos provoca. A ausência de reconhecimento dos contributos individuais por parte das estruturas monolíticas provoca esta erosão.

6. Em matéria de Orçamento de Estado, o BE está numa posição delicada: por um lado, ao estabelecer as linhas vermelhas adequadas, está comprometido a não viabilizar tal documento se não forem cumpridas as suas exigências; por outro, acentuar-se-á a ideia, na população, de que o BE continuará a ser a bengala do executivo (em dança de cadeiras com o PCP), indicando que de pouco serve em matéria de governação, ou, alternativamente, será responsabilizado por uma eventual crise política conducente a eleições antecipadas. Em qualquer dos casos, joga-se a credibilidade, a responsabilidade e a coerência discursiva (e de ação) do Bloco de Esquerda junto da opinião pública.

7. Mantém-se a chantagem presidencial sobre a esquerda parlamentar e Marcelo não desiste de uma solução “bloco central” que todos rejeitam. Os resultados autárquicos retiraram ao PS a ilusão de uma putativa maioria absoluta (ou mesmo de uma solução do tipo queijo limiano), que antes do verão era o cenário no qual António Costa jogou todas as fichas. 

8. A recomposição da direita portuguesa indica uma tendência de fragmentação que é historicamente o cenário da esquerda portuguesa. Não obstante, mantém-se a predominância do PSD e do PS como principais partidos de referência, ainda que também estejam sujeitos à erosão que os seus congéneres europeus já viveram ou ainda estão a viver, num cenário de falência do modelo social europeu.

9. Exige-se, hoje, uma profunda reflexão sobre o papel do Bloco de Esquerda na sociedade portuguesa e no panorama político português. É necessária a humildade para reconhecer que os erros políticos do BE têm-no conduzido a uma posição de quase irrelevância política e que muito se deve à ausência de uma estratégia de comunicação que não só tenha capacidade de estar ao nível da compreensão do eleitorado, mas que tenha em si respostas tangíveis aos problemas reais das pessoas reais. Tal implica que o Bloco tem de saber ouvir e entender aquilo que lhe é dito e tem de saber construir as propostas de solução em conjunto com as populações. Isto é verdade ao nível local, tanto quanto ao nível nacional.

Alternativa Novo Curso do Bloco de Esquerda

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