Epístola a uma ‘coisa nossa’ | Pedro Pereira Neto

Perdidas dezenas de milhares de votos a cada eleição, sobram as frases-feitas e as excepções para ocultar um padrão de derrota. A avaliação, o sentido auto-crítico, existem apenas nas vozes a que se reage com apupos, graçolas, e a obediência de vociferar a comando, recusando ideias que não são sequer escutadas ou lidas, desmentindo o Pluralismo que o nome afirmava.
Militamos contra a responsabilização de quem não assume culpa ou retira consequência.

O eleitorado foi perdido, em voz passiva, mas em vez de alterar procedimentos ou escrutinar erros de comunicação, selecção e repetição de nomes, apenas tentativas pífias de indignação pré-fabricada. Não há rumo. É cada vez mais provável que desapareçamos eleitoralmente antes de aceitarmos o que já hoje é evidente.

Derrota eleitoral após derrota eleitoral, o Bloco de Esquerda segue orgulhosamente convicto do merecimento de uma confiança que o eleitorado repetidamente lhe nega. Tal facto, contudo, em toda a sua evidência, não parece perturbar quem age considerando a realidade um detalhe. Perdidas que têm sido dezenas de milhares de votos a cada eleição, correspondem-lhe narrativas fantasiosas de condições e de contextos partilhando uma e apenas uma característica: a responsabilidade pelos desastres eleitorais dos últimos anos pertence invariavelmente ao exterior, e nunca – por uma única vez – a estratégia própria, a decisão interna.

No lugar em que seria expectável encontrar-se a mesma cultura de avaliação de desempenho, de assumpção de responsabilidades, da exigência habitualmente requerida a terceiras partes, sobraram as frases-feitas e eucaliptos discursivos, e a utilização das excepções para ocultar a existência de um evidente padrão de derrota e de incapacidade de inversão de uma tendência tão clara quanto é intenso o esforço em disfarçá-la. Decidida que parece ter sido a utilização repetida e repetitiva do slogan ‘o Bloco teve um mau resultado’, tal opção não apenas se revelou pouco mais que um eufemismo pobre e incapaz de dar conta da hecatombe ocorrida: revelava também uma consciente estratégia de secar preventivamente o debate, espécie de ramo de oliveira paliativo e substituto do verdadeiro escrutínio sobre causas e, mais que tudo, sobre consequências.

Quem assistisse à reunião teria dificuldade em aperceber-se dos mais de trinta e seis mil votos perdidos, dada a frequência das saudações à existência ela própria de envolvimento por parte das bases (envergonhado elogio a estruturas sub-financiadas, sub-apoiadas, sub-reconhecidas e ultrapassadas nos seus próprios âmbitos de intervenção pela elite estabelecida em torno da Assembleia da República), como se ele fosse uma surpresa, ou do mais flagrante auto-elogio, assim tentando manietar um Movimento de Esquerda através da lógica ‘nada contra o partido’, no próprio órgão onde essa avaliação crítica tem obrigatoriamente de ser feita.

Nesta última reunião da Mesa Nacional somou-se a tudo isto uma novidade, uma das mais ridículas e inimagináveis atitudes, e logo pelas vozes de algumas das suas figuras: a reescrita criativa de factos passados, quer considerando que a diminuição de representação não é uma derrota, quer afirmando ter existido na noite eleitoral uma reacção à divulgação dos primeiros resultados que só quem a imaginou poderá ter ‘visto’. Afigura-se, portanto, que para furtar-se à constatação das evidências até a pós-verdade parece estar a ganhar raízes neste momento, com o beneplácito de mesárias/os que não reconhecem uma falsidade desde que proferida por quem apoiam.

Onde esteve, então, a avaliação da estratégia, do desempenho? Onde se encontrava o sentido auto-crítico? Apenas nas vozes de aderentes que, talvez acreditando que uma ordem de trabalhos é um documento sério, contendo verbos de prática, efectivamente ali se deslocaram para fazer um balanço dos resultados eleitorais. Pela segunda vez no espaço de um ano, as mesmas pessoas a cujas palavras se reagiu com apupos de bancada de estádio, com graçolas de recreio, com a obediência de quem se habituou a vociferar a comando, reproduzindo internamente o seguidismo denunciado noutras forças políticas. O problema parece, assim, não ser o do processo, mas o do lugar ocupado: em defesa da casta dirigente nenhuma reacção é demasiado incivilizada, nenhum termo é excessivo, nenhuma atitude é indigna. O que parece importar é que se levante o braço e se vote não apenas no momento certo mas no sentido obrigatório, recusando ideias que não foram escutadas ou lidas, e que em diversos casos não mereceram sequer que se levantassem os olhos do ecrã de telemóvel onde se encontram.

O eleitorado foi perdido, mas não foi o Bloco a perdê-lo; tudo é afirmado com voz passiva: as outras forças fazem algo, ou algo acontece ao Bloco. Entre quem decidiu, escolheu, impôs, apresentou como facto consumado – nada, responsabilidade nula, obrigação de reconhecimento de erros próprios inexistente. Quem escute estas derivas considerará ser impossível a algum(a) dirigente enganar-se, equivocar-se: tudo foi perfeito, e a realidade, teimosamente, recusa-se a vassalagem ao nosso brilhantismo.

Propostas concretas, específicas, para aprender com erros, para alterar procedimentos, com identificação clara de recursos humanos e materiais, de objectivos e etapas, nem uma palavra. Sobre o contributo próprio para tornar menos difíceis as condições que explicam os resultados nada se ouviu da parte de membras/os da elite dirigente. Sobre escrutínio relativo a quem propôs, subscreveu, praticou, idem. Sobre erros claros de comunicação, de linguagem, zero. Sobre disparate na selecção de candidaturas, sobre a fastidiosa e moralmente falida repetição de nomes em cargos e lugares diferentes, silêncio. Sobre a evidente perda de elan de protesto, da imagem de colectivo ainda movido por um espírito de missão em benefício de terceiras/os, e não acorrentado ao seu lugar, garantindo-o, palavra nenhuma. Em seu lugar, manifestações inócuas de preocupação, afirmações grandiloquentes de aversão partidária, tentativas pífias de discurso galvanizador, com a ocasional indignação pré-fabricada. Uma encenação pobre que poluiu de forma visivelmente premeditada o reduzido tempo disponível para identificação, responsabilização e planificação. Não há rumo, mas quem assiste aos sorrisos e abraços no final quase fica convencida/o de que ele existe.

Terminada mais uma Mesa Nacional onde a ‘discussão’ rapidamente é substituída pela pressa no cumprimento de um horário (que, aparentemente, é mais importante que qualquer discussão verdadeiramente consequente, a lembrar que ‘saímos à rua mas a horas marcadas’) não apenas não foi feito qualquer balanço efectivo: ficaram por constatar e fazer dois outros balanços – o do funcionamento da Mesa Nacional, reduzido a bureau de confirmação/aclamação da voz da moção vencedora mediante a multiplicação de inscrições para repetição do mantra oficial; e da Direcção, decidindo sem ser avaliada, impondo sem verdadeiramente ser fiscalizada, reescrevendo e seleccionando a versão da realidade que mais convenientemente a projecta.

Em 2021, o mesmo Bloco de Esquerda que se erguia contra a desconsideração e paternalismo políticos levados a cabo por outros partidos, o mesmo Bloco de Esquerda que denunciava a absoluta indignidade de não ver escutada, ponderada, avaliada a qualidade das suas propostas – esse Bloco reduz-se, hoje, à atitude infantil de quem se move desconfortavelmente na cadeira perante o mesmo tipo de crítica legítima que dirige a outrém; reduz-se, hoje, à convivência e cumplicidade com a perversão da Democracia interna, enquanto se revela útil para minar a dissonância e o descontentamento legítimos; reduz-se, hoje, à aversão a qualquer avaliação e responsabilização efectivas de uma liderança que, de forma unilateral, concebeu e praticou campanhas em que perdeu votos às dezenas de milhar, sem por uma única vez assumir culpa própria e daí retirar consequências políticas pessoais e colectivas; reduz-se, hoje, a um desmentido prático do Pluralismo que o seu nome anteriormente afirmava.

Talvez o Bloco não sobreviva a quem hoje o lidera: é cada vez mais provável que desapareçamos eleitoralmente antes de aceitarmos o que já hoje é evidente. Por preferência pessoal, por afinidade ou horizonte profissional, parece mais importante garantir a continuidade de nomes mesmo que à custa de um projecto que deveria estar acima de tais interesses. E quem, dentro deste Movimento, não reconhece e combate este status quo, quem é conivente por omissão, quem contribui para colocar o grupo acima do colectivo e dos valores deste, é tão responsável por esse desaparecimento e pela descaracterização do Manifesto como quem, em posição política de relevo, distorce e perverte esse momento fundador a cada eleição, a cada discurso, a cada evento; a cada oportunidade perdida para estar ao serviço e devolver a esperança a uma população que a procura cada vez mais noutros lugares.

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